“Mas afinal, o que eu tenho?”
Uma das perguntas mais recorrentes para profissionais da área da saúde mental é “O que você acha que eu tenho?”Hoje em dia está cada vez mais comum nos depararmos com classificações e rótulos para coisas que nem sabíamos que existiam. Esquecer as chaves em casa não é mais distração ou sobrecarga, é TDAH. Existe cada vez mais uma necessidade de dar nome, categoria, uma explicação rápida inquestionável.
Mas… será que todo sofrimento precisa virar rótulo?
Na psicanálise, estruturas clínicas não são rótulos de personalidade, nem um “carimbo” sobre quem você é. Elas são ferramentas de escuta, de direção do tratamento.
Ainda assim, cresce cada vez mais a necessidade de se encaixar em algum diagnóstico, de explicar comportamentos, sentimentos, pensamentos com um “simples” laudo.
Às vezes, o diagnóstico aparece como um alívio — dá contorno à angústia.
Mas também pode funcionar como um limite, quando passa a reduzir o sujeito a uma categoria.
Quando brincamos dizendo “sou neurótica obsessiva” ou “histérica”, há mais humor do que definição. Uma forma de lidar com o que escapa, com o que não se resolve tão facilmente em palavras prontas.
Nem tudo em nós cabe em um nome.
E tudo bem.
A psicanálise aposta justamente nisso: há sempre algo do sujeito que não se deixa capturar por um diagnóstico.
Talvez a pergunta não seja “o que eu tenho?”,
mas “o que isso diz de mim?”